"Simplesmente Yoga"

🪷 "Simplesmente Yoga"...

"Quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto." (Mateus 6:6)

"Não nos aproximamos de Deus através de nossos joelhos, ou através do corpo inteiro prostrado no chão, mas, sim, no fundo de nossos corações. Não sentimos Deus com as nossas emoções mais do que o conhecemos com os nossos pensamentos. Não! - sentimos a presença divina naquela profunda quietude sobrenatural, onde nem os sons do clamor da emoção nem os da moagem intelectual podem entrar." (Paul Brunton)

"Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus..."
(Gilberto Gil)

Enfim... "Simplesmente Yoga": Despir-se.
Esse tecer de citações é um belíssimo exercício de "desmonte" do ego. É interessante como, embora venham de contextos tão distintos — o ensinamento bíblico, a filosofia mística de Paul Brunton e a poesia de Gilberto Gil —, todas convergem para o mesmo ponto focal: a retirada estratégica do mundo exterior para o encontro com o essencial.

​"Simplesmente Yoga" pode se referir à união que só ocorre quando removemos as interferências. Refletindo sobre essa tríade:

​1. O Quarto Fechado (A Intimidade)
​A passagem de Mateus fala não remete a um espaço físico. Em sintonia com as outras frases, percebemos que o "quarto" é a própria consciência. Fechar a porta é o silenciamento dos sentidos. É o reconhecimento de que o sagrado é um segredo partilhado na intimidade do ser.

​2. A Quietude Sobrenatural (A Profundidade)
​Paul Brunton nos dá o "mapa" para chegar nesse quarto. Ele descarta as ferramentas comuns:
​O corpo (prostrações) não basta.
​A emoção (o clamor) é ruído.
​O intelecto (a moagem) é distração.
Ele aponta para uma "quietude sobrenatural". É o estado de Pratyahara (o recolhimento dos sentidos) e Dharana (concentração) do Yoga, onde a mente para de fabricar conceitos sobre a divindade para finalmente experienciar a presença.

​3. O Despir-se de Gil (A Entrega)
​Gilberto Gil traduz essa metafísica em humanidade. Para ele, o "entrar no quarto" exige desatar os nós:
​Nós sociais: A gravata, os sapatos, os julgamentos.
​Nós temporais: Esquecer a data, perder a conta (o tempo cronológico).
​Nós psicológicos: Desejos e receios.
​A Síntese: Mãos Vazias

​Enfim, despir-se resume a essência. É a pedagogia do esvaziamento. Muitas vezes achamos que para "falar com Deus" ou atingir o Yoga precisamos adicionar algo (mais conhecimento, mais mantras, mais rituais). No entanto, essas citações sugerem o contrário: é um processo de subtração.

​É como o bambu que, para ser útil e flexível, precisa ser oco. Ou a flor de lótus, que emerge da lama, mas não carrega a lama em suas pétalas.

​Estar com as "mãos vazias" e a "alma nua" é, talvez, o estado de maior soberania que um ser humano pode alcançar: quando ele não é mais o que possui, o que pensa ou o que sente, mas sim a pura percepção presente na quietude.

Seguimos nutrindo o eterno fluir...