🌻"A Cultura e o Problema Humano"
Pergunta: Por que detestamos os pobres?
Krishnamurti: Detestais deveras os pobres? Não vos estou condenando; estou só perguntando se realmente detestais os pobres. Se o fazeis, por quê? Por que pode acontecer que também sejais pobre um dia, e, imaginando vossas próprias circunstâncias, então, tal estado vos repugna? Ou tendes aversão à existência sórdida, abjeta, desordenada, dos pobres? Como não gostais de desalinho, desordem, esqualidez, imundície, dizeis: "Nada quero com os pobres.” É isso? Mas quem foi que criou a pobreza, a sordidez, a desordem, neste mundo? Vós, vossos pais, vosso governo — toda esta sociedade as criou; porque não temos amor em nosso coração. Não amamos nem nossos filhos, nem nosso próximo, não amamos os vivos nem os mortos. Os políticos não irão extirpar a miséria e a fealdade existentes no mundo, e tampouco o farão a religião e os reformadores, porque a todos só interessa "pregar” um pequeno remendo aqui e’ ali; mas, se houvesse amor, todas essas coisas feias desapareceriam amanhã.
Amais alguma coisa? Sabeis o que significa amar? Quando amais uma coisa completamente, com todo o vosso ser, tal amor não é sentimental, não é um dever, não se divide em físico e divino. Amais alguém ou alguma coisa com todo o vosso ser — vossos pais, um amigo, um cão, uma árvore? Amais? Parece-me que não. Por isso é que, em vosso ser, há tanto espaço onde se abriga a fealdade, o ódio, a inveja. Mas, o homem que ama não tem espaço para nada mais. Deveríamos, com efeito, passar nosso tempo livre a examinar tudo isso, a fim de descobrirmos o meio de eliminar as coisas que nos estão atravancando a mente de tal maneira, que não podemos amar; porque é só quando amamos, que podemos ser livres e felizes. Só os que amam, os valorosos, os felizes, podem criar um mundo novo — e não os políticos, os reformadores ou uns poucos visionários ideológicos.
(Krishnamurti - A Cultura e o Problema Humano - Editora - Cultrix - Pág - 108)
Krishnamurti, com sua lucidez cristalina, toca no nervo exposto da nossa condição humana e nos arranca de qualquer zona de conforto. "Porque é só quando amamos, que podemos ser livres e felizes."
O amor é um estado de preenchimento tão absoluto e total ("com todo o vosso ser") que simplesmente não deixa espaço para a fealdade, para o ódio ou para a indiferença. O homem que ama está pleno; sua mente não está atravancada de preconceitos, defesas ou julgamentos.
Enfim... Saber amar é saber se libertar. É a soberania do artesão sobre a própria existência: amar com desapego é como o voo livre, onde o laço que une os corações não é feito de nós que apertam, mas de linhas invisíveis de pura luz e compreensão.
Vamos que vamos semeando a liberdade entre o amor e a razão. 🌺
