QUANDO EU ME ENCONTRAR EM DEUS
Não quero chegar ao fim da vidacarregando aquilo que acumulei.
Quero chegar mais leve,
quase vazio de mim,
porque tudo aquilo que recebi
terá sido entregue pelo caminho.
Se minhas mãos receberam,
que tenham aprendido a repartir.
Se meus olhos encontraram a Luz,
que tenham ajudado alguém
a atravessar a escuridão.
Se meus pés descobriram um caminho,
que minhas pegadas possam dizer
a quem vier depois:
— Por aqui também se chega ao Amor.
Durante muito tempo
o homem procura Deus
como quem procura uma estrela distante.
Olha para o céu,
interroga os templos,
consulta os livros,
percorre doutrinas,
filosofias e caminhos.
Até descobrir, talvez depois de muitas jornadas,
que Deus nunca esteve distante.
Estava no silêncio
entre dois pensamentos.
Na mão que se estendeu.
Na lágrima que alguém enxugou.
No pão repartido.
Na criança acolhida.
No velho escutado.
No desconhecido tratado como irmão.
Deus estava ali,
esperando apenas
que deixássemos de procurá-Lo
somente no infinito
para reconhecê-Lo
também no próximo.
Aprendi que viver
não é simplesmente atravessar os anos.
É permitir que os anos
atravessem nossa alma
e retirem dela, pouco a pouco,
o orgulho,
o egoísmo,
a vaidade,
a necessidade de possuir,
até permanecer aquilo
que talvez sempre tenhamos sido
em nossa essência:
uma centelha
desejando retornar à Luz.
Por isso não quero uma vida
que pertença somente a mim.
Que sentido teria uma fonte
se guardasse sua água?
Que sentido teria o Sol
se iluminasse apenas a si mesmo?
Que sentido teria uma árvore
se recusasse sua sombra
ao viajante cansado?
A Vida também nos pergunta:
— O que fizeste daquilo que te dei?
E quando essa pergunta chegar,
não quero responder
com aquilo que possuí.
Quero responder
com aquilo que ofereci.
Se tive conhecimento,
que ele tenha servido.
Se tive força,
que ela tenha protegido.
Se tive voz,
que ela tenha consolado.
Se tive oportunidades,
que tenham se transformado
em oportunidades para outros.
Se tive Amor,
que não tenha ficado preso
dentro de mim.
Porque o Amor guardado
é apenas possibilidade.
O Amor vivido
torna-se presença de Deus no mundo.
Talvez servir seja justamente isso:
deixar que Deus
alcance alguém
através de nossas mãos.
Não porque sejamos melhores.
Não porque sejamos santos.
Mas porque, por alguns instantes,
conseguimos diminuir o nosso eu
o suficiente
para que algo maior
passe através de nós.
E então compreendo:
não preciso realizar
coisas extraordinárias.
Há eternidades escondidas
nos pequenos gestos.
Um prato de alimento
pode ser uma oração.
Um abraço
pode ser um templo.
Uma palavra de esperança
pode impedir uma alma de desistir.
Um gesto de perdão
pode interromper uma corrente de ódio
que atravessaria gerações.
Uma pequena bondade
pode continuar caminhando pelo mundo
muito depois
de quem a praticou partir.
Talvez seja assim
que tocamos a eternidade:
não vivendo para sempre,
mas colocando Amor
em coisas que continuarão vivendo
depois de nós.
Busquei muitas respostas.
E quanto mais caminho,
mais simples parece tornar-se
aquilo que antes parecia tão complexo.
Talvez não tenhamos vindo
para vencer uns aos outros.
Talvez tenhamos vindo
para vencer aquilo que, dentro de nós,
nos separa uns dos outros.
Não viemos apenas aprender.
Viemos transformar conhecimento em consciência.
Não viemos apenas acreditar.
Viemos transformar fé em vida.
Não viemos apenas falar de Amor.
Viemos tentar,
dia após dia,
tornar-nos Amor.
E talvez esta seja
uma das grandes batalhas da existência:
amar quando seria mais fácil julgar;
perdoar quando o orgulho pede vingança;
compreender quando o ego deseja vencer;
continuar fazendo o Bem
quando ninguém percebe;
servir
quando não haverá aplausos;
e permanecer na Luz
mesmo quando as sombras
parecem dominar o caminho.
Porque o Bem verdadeiro
não precisa de testemunhas.
Há ações que nenhum homem verá,
mas que talvez o Universo inteiro reconheça.
E a Paz?
Também a procurei.
Durante muito tempo
poderíamos pensar que Paz
fosse apenas silêncio:
o fim das guerras,
das discussões,
das violências.
Mas existe uma Paz
ainda mais profunda.
Uma Paz que não depende
de o mundo estar tranquilo.
Ela nasce quando aquilo que pensamos,
aquilo que sentimos
e aquilo que fazemos
começam finalmente
a caminhar na mesma direção.
Nasce quando a consciência
não precisa mais fugir de si mesma.
Quando não precisamos aparentar
aquilo que não somos.
Quando nossa vida exterior
começa a refletir
nossa verdade interior.
E então percebo:
a verdadeira Paz
é encontro.
Encontro comigo mesmo.
Encontro com o próximo.
Encontro com a Vida.
E, no mais profundo de todos os encontros,
encontro com Deus.
Não com um Deus distante,
sentado além das estrelas,
mas com a Presença
que pulsa silenciosamente
em tudo aquilo que vive.
Talvez nesse instante
desapareça a separação.
Já não existe apenas
“eu” e “o outro”.
Existe Vida encontrando Vida.
Consciência reconhecendo Consciência.
A centelha percebendo
que sempre pertenceu ao Fogo.
E então servir ao outro
deixa de ser sacrifício,
porque compreendemos
que não existe Amor oferecido
que não retorne também
àquele que ama.
Um dia partirei.
Como todos partiremos.
Meu nome será pronunciado
cada vez menos.
Meus passos desaparecerão.
Aquilo que minhas mãos construíram
também encontrará o tempo.
Mas há uma coisa
que talvez o tempo
não consiga destruir:
O Bem que colocamos em movimento.
Porque todo Amor verdadeiro
continua.
Passa de coração em coração.
Transforma-se em gesto.
Depois em exemplo.
Depois em consciência.
E talvez siga caminhando
por lugares que jamais conheceremos.
Quando chegar minha hora,
não peço monumentos.
Não peço glórias.
Não peço que o mundo
se lembre de mim.
Peço apenas que minha passagem
tenha deixado um pouco mais de Luz
onde encontrei escuridão;
um pouco mais de esperança
onde encontrei desalento;
um pouco mais de Paz
onde encontrei conflito;
e um pouco mais de Amor
onde encontrei sofrimento.
Se isso acontecer,
minha vida terá valido a pena.
E quando meus olhos
se fecharem para este mundo,
talvez outros se abram
para uma realidade maior.
Então não perguntarei:
“Quanto consegui?”
Perguntarei:
“Quanto amei?”
Não:
“Quanto guardei?”
Mas:
“Quanto entreguei?”
Não:
“Quantos me serviram?”
Mas:
“A quantos pude servir?”
E talvez, diante da imensidão,
eu finalmente compreenda
que cada pessoa que encontrei,
cada dificuldade que atravessei,
cada lágrima,
cada alegria,
cada oportunidade de servir
eram partes
de uma mesma escola.
A escola da alma.
A longa aprendizagem
de transformar existência
em consciência,
consciência em Amor,
e Amor
em comunhão.
Então talvez eu descubra
que passei a vida procurando Deus
quando, silenciosamente,
era Ele quem me procurava
em cada pessoa
que precisava de mim.
E compreenderei enfim
que o caminho para Deus
nunca esteve distante.
Passava pela Terra.
Passava pelo próximo.
Passava pelo serviço.
Passava pelo perdão.
Passava pelo Bem.
Passava pelo Amor.
E se um dia minha alma
encontrar finalmente
aquela Paz que tanto buscou,
talvez não seja porque
eu tenha chegado a algum lugar.
Será porque finalmente compreendi
onde sempre estive:
em Deus.
E talvez então
já não exista caminho,
nem chegada,
nem aquele que procura.
Haverá apenas
a Luz,
a Paz,
o Amor
e o silêncio infinito
de uma alma que finalmente reconheceu
que servir à Humanidade
era sua maneira de servir a Deus,
que amar cada ser
era sua maneira de amá-Lo,
e que toda a sua caminhada
não era outra coisa
senão o lento e sagrado aprendizado
de voltar conscientemente
à Fonte de onde jamais
esteve verdadeiramente separada.
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