🌄 A madrugada tem suas próprias leis, tecendo com fios de prata o que o dia costuma guardar no bolso da pressa. No sonho, a festa não era feita apenas de passos e luzes, mas de uma musicalidade viva que parecia brotar da própria natureza ao redor, como se a terra e o vento decidissem entoar um canto antigo.
Entre uma nota e outra, o olhar cruzou com o de um homem. A postura, a maresia mansa que o acompanhava, trazia a nítida certeza de uma velha sintonia.
— Você lembra um músico — arrisquei, com a curiosidade leve de quem tropeça em uma lembrança boa.
Ele sorriu, intrigado, e devolveu:
— Quem?
O nome exato fugiu por um triz, escapando como água entre os dedos. Mas a melodia já estava pronta na ponta da língua, pedindo passagem. Era preciso puxar o fio do refrão para ver o que a memória revelava:
"Brilha no céu de novo uma estrela
Soltando a luz que reluz seu olhar
Paira no tempo um sonho perdido
Que a gente só pensa em de novo encontrar"
Bastava entoar os primeiros versos para que o véu do esquecimento caísse por terra. Com um sorriso largo, que trazia o clarão de tantas outras noites, ele confirmou:
— Sim, sou eu mesmo, Marcos Sabino. Bora lá, convidar todos a cantar "Reluz".
E foi assim que a festa ganhou outro ritmo. Porque há encontros que são verdadeiros refúgios: quando a gente canta junto, o tempo para, o sonho reencontra seu lugar, e o coração — esse eterno artesão — volta a brilhar na mesma intensidade da estrela que nunca se apaga.