🌌 "Toda a Terra é um Templo"
"Os povos indígenas do mundo viviam e agiam como peregrinos. A Terra era o seu templo, a sua igreja e a sua mesquita. Eles iam para a natureza em busca da sua visão. Sentavam-se sob as árvores para as suas orações e meditações, e não olhavam para o alto para encontrar o céu – o seu céu era aqui na Terra.
São Francisco [de Assis] era um peregrino neste planeta sagrado. Lobos, aves e todas as outras criaturas eram seus amigos e familiares; o sol e o fogo eram seus irmãos; a Lua, as estrelas, o vento e a água eram suas irmãs.
Para os Hindus, Deus não é uma pessoa sentada num paraíso. Para eles, toda a vida está imbuída com o Divino. Tudo desde uma folha de erva até aos elevados Himalaias está permeado de ponta a ponta com o Espírito Sagrado. Os Hindus consideram-se a si mesmos peregrinos no planeta Terra.
Em todas as tradições religiosas existem alguns lugares sagrados especiais: eles são como os sete chakras ou pontos da acupunctura do corpo humano. Os peregrinos fazem suas jornadas para estes sítios: as montanhas sagradas de Kailash ou Athos, os rios sagrados do Ganges ou Yangtze, e os lugares sagrados como o Caminho de Santiago de Compostela e da Ilha de Iona.
É útil realizar viagens externas a fim de realizar viagens internas, mas a realização significativa de uma peregrinação está na consciência de que toda a Terra é um lugar sagrado. Claro que cada um de nós pode descobrir um local particular que ressoa com o nosso espírito, onde podemos ir e estarmos em recolpimento e nos encontrarmos a nós mesmos, quer seja junto a uma árvore particular, ou monte, ou um recanto no litoral. Tais lugares sagrados especiais podem ser um símbolo significativo. Do mesmo modo, um mantra é um som que nos conecta com a consciência cósmica, um pequeno bosque, gruta ou vale pode ser um ponto para nos conectarmos com a Terra.
A Terra sagrada é uma anfitriã graciosa para todos os peregrinos – mas estamos nós preparados para sermos graciosos peregrinos convidados, em vez de meros turistas?"
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Parágrafos traduzidos do livro “Earth Pilgrim”, Satish Kumar, Green Books, 2009 pp. 12-13. Pintura de Glittering Fox.
"Toda a Terra é um Templo": Reflexões de um Transeunte
"Os povos indígenas viviam como peregrinos. A Terra era o seu templo. Eles não olhavam para o alto para encontrar o céu – o seu céu era aqui."
Essa provocação de Satish Kumar em Earth Pilgrim nos faz um questionamento urgente: estamos preparados para ser graciosos peregrinos ou somos apenas turistas na Terra?
Filosofando como uma artesã aprendiz das palavras, evoco o chamado de Mestre Jesus: "Sêde Transeuntes!".
Há nisto uma profunda chave de inversão. Ser transeunte não é ser um errante sem rumo. É o oposto: viver como quem permanece na luz, na verdade e no amor.
🎋 A Flauta de Bambu
É a postura de quem caminha com o coração leve, desapegado, mas plenamente presente. Como uma flauta de bambu que, por ser oca, permite que o vento cante a Música Celestial através dela sem retê-lo. O transeunte caminha sem acumular as "impurezas na borda" que pesam na alma.
Essa postura exige percepção cirúrgica sobre a nossa própria psicologia. A mente inferior funciona como um mecanismo de projeção constante. Se não estamos vigilantes — no exercício do "orai e vigiai" —, passamos a vida reagindo a ilusões inconscientes.
A verdadeira metamorfose começa quando a mente iluminada pelo discernimento assume as rédeas dos desejos. Limpamos o espelho da mente. O conhecimento deixa de ser teoria em estantes e passa a ser sabedoria viva.
🌍 O Planeta e a Autocultura
Se o planeta tem seus pontos sagrados de ressonância (seus chakras), nós também temos nossos centros de força interna. O mergulho interior não significa isolamento, mas a preparação para a ação correta: a transmutação do egoísmo em altruísmo.
Olhar para a Terra como um templo é entender que não precisamos de grandes catedrais de pedra para encontrar o Sagrado. A beleza surge no encanto das pequenas coisas, como o voo de um beija-flor e o pouso de uma abelha - símbolos sagrados. Enquanto o beija-flor personifica a cura, a alegria e a leveza do transeunte que flui sem reter nada, a abelha traz o mistério do pouso sagrado, da resiliência, do trabalho em equipe que gera a doçura e renova a vida através da polinização.
O chamado bíblico "Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a", na dimensão vertical da alma, revela a soberania do artesão sobre sua própria natureza. Convida-nos a cuidar do planeta e de nós mesmos com profunda responsabilidade.
🌿 Desapegar dos Dicionários, Despertar o Alto Coração
Desapegar das definições rígidas e frias dos dicionários é um ato de transmutação. Quando o dicionário define "transeunte" apenas como quem passa pela via pública, enxerga só a superfície.
Sob a luz do ensinamento milenar, a casca se rompe:
• O "passar" torna-se puro desapego material. O ser "oco" passa a significar a plenitude do espaço interno livre para o Sagrado. O caminhar ganha o ritmo sutil integrado ao universo. Mabel Collins, em Luz no Caminho, diz que "ler no sentido oculto é ler com os olhos do espírito". Isso conversa com a raposa de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe: "o essencial é invisível aos olhos".
O amor, o desapego e a autossustentação são invisíveis para a carne, mas nítidos para o espírito.
🏛️ O Oráculo de Delfos
Cada fio que tecemos nos conduz de volta ao Templo de Apolo: "Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses; e, nada em excesso".
O "Conhece-te a ti mesmo" desperta o escultor consciente. O macrocosmo se revela no microcosmo. E o "nada em excesso" é a justa medida do artesão que sabe edificar seu templo interno sem carregar excesso de bagagem na alma.
E quanto ao "excesso" de filosofar? Sabendo que tão pouco sei, ele é apenas a semente da consciência germinando em boa terra.
Sigo cultivando e cativando:
• Cativo cultivando comigo: O mergulho no íntimo, a autocultura. Cativo cultivando contigo: A troca fraterna, o espelho no próximo. Cativo cultivando convosco: A egrégora do grupo, a dimensão coletiva.
🌺 O Tecido do Ser: As Três Dimensões do Cultivo - "Nós Somos O Mundo!"
Estar cativo é entregar-se ao próprio cultivo. É a conexão entre o recolhimento e o laço, traduzida na imagem da tecelã que fia a própria existência em três movimentos essenciais:
Comigo (Individual): O tear como o casulo da mente. A tecelã trabalha em paz e recolhimento, no processo de individuação. É a autocultura servindo de fertilidade para a alma.
Contigo (Interpessoal): A ilusão do espelho. O próximo, na verdade, não existe fora; as flores, o beija-flor e tudo o mais é a relação Eu-Tu funcionando como o único espelho capaz de revelar o que está oculto em nós mesmos.
Convosco (Coletivo): A egrégora. Os fios de luz dourada do Cosmos expandem ao tear, cruzam as montanhas e tocam os corações. É a sinergia espiritual, cultural e social onde todos os seres se conectam e o Todo se torna infinitamente maior que a soma das partes.
Somos, ao mesmo tempo, quem tece, o fio que conecta e a imensidão do tecido que abraça divinamente o Universo.
Enfim... "Estar no mundo, sem ser do mundo". Ser o artesão da própria existência, edificando o templo interno enquanto caminha.
Ir-se Sorrindo Sempre! Somos o céu que acolhe o voo, a terra que recebe o pouso e o mel sagrado que alimenta a alma. Sigamos fluindo no tear poético e transeuntes, cultivando as virtudes e semeando a paz, num "indo e vindo o infinito".
Com carinho,
Jane Freitas Ribeiro 🌺
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